{"id":104,"date":"2020-02-04T20:34:28","date_gmt":"2020-02-04T20:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/clientesinterativa.com.br\/003\/erickpereira\/novo\/?post_type=article&#038;p=104"},"modified":"2020-02-06T20:57:48","modified_gmt":"2020-02-06T20:57:48","slug":"os-politicamente-incorretos","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/erickpereira.com\/index.php\/article\/os-politicamente-incorretos\/","title":{"rendered":"Os politicamente incorretos"},"content":{"rendered":"\n<p>Certa feita, fui consultado por uma dom\u00e9stica que trabalhava na casa de uns parentes. Aos prantos, M. contou-me sua pungente hist\u00f3ria de m\u00e3e, cujo maior tra\u00e7o certamente era uma enorme culpa, sentimento inevit\u00e1vel que lhe transfixava a alma e se associava \u00e0 conduta do seu \u00fanico filho. Culpa que nem os rituais religiosos e seus penosos exerc\u00edcios de contri\u00e7\u00e3o conseguiam elidir. Seu rebento, com 18 anos rec\u00e9m completados, ingressou no sistema prisional ap\u00f3s anos de desvios de conduta que motivaram interna\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias e tentativas frustrantes de interromper uma escalada de delitos. M. lastimava as vidas ceifadas por S., por ocasi\u00e3o de uma disputa de gangues. Lamentava n\u00e3o ter conseguido formar uma fam\u00edlia, arranjar um bom homem que pudesse servir de pai ou modelo masculino para S.<\/p>\n\n\n\n<p>Culpava-se pela pr\u00f3pria pobreza de migrante rural que a encarcerara, e o seu filho, em meio hostil e degradante. Responsabilizava-se pela impossibilidade de acompanhar de perto o desenvolvimento de S., controlar suas notas, seus impulsos, seus amigos, suas sa\u00eddas. Ao fim, culpava-se n\u00e3o s\u00f3 pela pr\u00f3pria exist\u00eancia, mas por ter tido S.<br><br>Na \u00e9poca, chocou-me o paradoxo existencial da m\u00e3e culpada e da arrependida por haver permitido S. escapar \u00e0 sanha de uma hist\u00f3ria de abortamentos. Achei que s\u00f3 uma grande dor poderia abrigar tamanho absurdo. Uma dor pass\u00edvel de toldar o racioc\u00ednio, a l\u00f3gica, o bom senso, o ju\u00edzo. Dor de m\u00e3e. No entanto, hoje tenho d\u00favidas se a lancinante dor de M. n\u00e3o teria o lastro racional de apenas uma aparente contradi\u00e7\u00e3o. Estranhamente, o que me fez lembrar e refletir no paradoxal discurso de M. foi um estudo do economista Steven Levitt sobre a criminalidade.<br><br>Afeito a temas inusitados que destroem velhos paradigmas e lan\u00e7am uma nova luz a quest\u00f5es do nosso cotidiano, n\u00e3o \u00e0 toa que Levitt \u00e9 atualmente considerado o mais controvertido e genial dos jovens economistas americanos, estrela do departamento de Economia da Universidade de Chicago. Atendo-se ao caso de M., Levitt muito provavelmente diria que sua conclus\u00e3o paradoxal escapou dos ditames da sabedoria convencional ou do senso comum em fun\u00e7\u00e3o da dolorosa experi\u00eancia a que foi exposta. Sim, pois segundo o seu mais controvertido estudo, a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto nos EUA foi um dos maiores fatores respons\u00e1veis pela maci\u00e7a queda da criminalidade a partir dos anos 90 naquele pa\u00eds.<br><br>A senten\u00e7a da Suprema Corte no processo Roe versus Wade (1973) sinalizou que as mulheres que n\u00e3o desejam ter filhos geralmente t\u00eam bons motivos que as fazem crer que s\u00e3o incapazes de oferecer um lar ajustado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a saud\u00e1vel. Tais motivos, que variam de ter um mau casamento, ser m\u00e3e solteira, dependente de drogas, pobre demais, infeliz demais, jovem demais ou pouco instru\u00edda, sugerem danos iminentes na sa\u00fade f\u00edsica e emocional dos envolvidos, afora o problema de \u201cfazer nascer uma crian\u00e7a em uma fam\u00edlia j\u00e1 incapaz, em termos psicol\u00f3gicos e outros, de cuidar dela\u201d.<br><br>Independentemente da posi\u00e7\u00e3o que se assuma frente ao aborto, os estudos mostram que a inf\u00e2ncia pobre em lar de genitor solteiro est\u00e1 entre os mais fortes determinantes de um futuro criminoso, ao lado de outros fatores como a baixa instru\u00e7\u00e3o materna e o fato de ser filho de m\u00e3e adolescente. Tais aspectos se encaixam no perfil das mulheres americanas que mais se utilizaram da decis\u00e3o do caso Roe versus Wade. Levitt demonstrou que no in\u00edcio dos anos 90, quando a primeira gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as nascidas ap\u00f3s a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto chegava \u00e0 adolesc\u00eancia, sabidamente a fase em que os jovens do sexo masculino atingem o auge criminoso, o \u00edndice de criminalidade come\u00e7ou a despencar.\u00a0 \u00a0<br><br>A pol\u00eamica em torno da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, entre n\u00f3s delicad\u00edssima e sujeita a mal-entendidos como o que recentemente envolveu o atual ministro da Sa\u00fade, h\u00e1 que considerar que o mundo real, objeto da economia e de outras ci\u00eancias, apresenta-se muitas vezes independente do mundo ideal, pautado pela moralidade. Da\u00ed ser bastante dif\u00edcil dissociar os pr\u00f3prios escr\u00fapulos e a cren\u00e7a em dogmas de resultados de estudos cient\u00edficos que colidem com a sabedoria convencional e nos escandalizam, mas que, nem por isso, devemos ignor\u00e1-los. \u00c9 chocante constatar que M., com sua prec\u00e1ria instru\u00e7\u00e3o e infelicidade abismal, intuitivamente soube, como Levitt e suas complexas correla\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas, que \u201cn\u00e3o \u00e9 preciso, por\u00e9m, ser contra o aborto, do ponto de vista moral ou religioso, para perder o prumo diante da no\u00e7\u00e3o de que um sofrimento pessoal possa ser convertido em satisfa\u00e7\u00e3o coletiva\u201d.<br><br><strong>Humanidade cruel &#8211; permite que a sociedade tire proveito do sofrimento de tantas mulheres que, n\u00e3o fosse a realidade de desigualdades e car\u00eancias sociais, n\u00e3o interromperiam a gesta\u00e7\u00e3o dos filhos. Valho-me da sabedoria de S\u00eaneca: \u201cCometeu o crime quem dele recebeu benef\u00edcios\u201d.<\/strong><br><br><strong>Di\u00e1rio de Natal, 16.05.2007<\/strong><\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"parent":0,"template":"","class_list":["post-104","article","type-article","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Os politicamente incorretos - Erick Pereira Advogados<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/erickpereira.com\/index.php\/article\/os-politicamente-incorretos\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Os politicamente incorretos - Erick Pereira Advogados\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Certa feita, fui consultado por uma dom\u00e9stica que trabalhava na casa de uns parentes. 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